Arte, percepção e saúde mental

Atualizado: Mai 16


Toda profissão tem seus mitos, histórias relatadas por alguém a respeito de algum sujeito muito bem-sucedido tanto financeira quanto socialmente. Usamos estes mitos para nos espelharmos e tentarmos extrair algumas premissas sobre como alcançar os mesmos resultados. Embora tal abordagem possa transmitir certa segurança temporária, na realidade funciona mais como um comprimido que nos acalma para podermos seguir viagem. A estrada que trilhamos é único, somos seres singulares – cometendo erros e acertos que só podem ser examinados sob o ângulo da nossa própria biografia. Para entender porque isso acontece é possível estudar as artes visuais integrando-a com os princípios de mindfulness no sentido da sua hábil maneira de constantemente transformar nossas percepções.


Está na natureza de cada ser humano o desejo e a necessidade de experimentar o sentimento de segurança para viver, não tendo isto, buscará algum recurso para obtê-lo. Atualmente muitas carreiras ditas estáveis estão se diluindo e os empregos sendo reduzidos a números economicamente satisfatórios para os empregadores. O que fazer frente a tantas transformações? O número de suicídios e transtornos psicológicos diagnosticáveis cresce significativamente. Cerca de oitocentas mil pessoas recorrem ao suicídio a cada ano de acordo com a Organização Mundial de Saúde (WHO – World Health Organization), ou seja, uma pessoa a cada 40 segundos. Segundo dados da organização o suicídio é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo. Em 2016 79% destes casos ocorreram em países de baixa e média renda. No Brasil a estimativa feita em 2014 apontou 8398 mortes de homens e 2233 mortes de mulheres, totalizando 10631 suicídios (WHO website , 2017).


Tais informações podem ser examinadas de inúmeras maneiras sob a ótica de diferentes áreas (política, economia, sociologia, saúde e nutrição, e infinitas outras), mas aqui o pensamento ficará sob a ótica das artes visuais. É possível que poucos consigam ver como tal relação possa ser feita, porém ela existe, porque um dos elementos essenciais da arte é sua capacidade de proporcionar ao ser humano uma vida com valor e significado. E, atualmente, as artes visuais têm nos proporcionado vislumbrar diversas perspectivas sobre nossa realidade. Dentro de suas especialidades técnicas e, em seus múltiplos discursos imagéticos, os artistas contemporâneos profissionais provocam nossos conceitos, preconceitos e nos proporcionam um caleidoscópio de experiências capazes de estimular nossa imaginação e nossa percepção. Sua formação profissional está voltada para a investigação da realidade e suas formas de representação, incluindo as ilusões provocadas pelas nossas percepções.


A percepção é uma função cerebral que nos permite atribuir significado aos estímulos sensoriais (visão, audição, olfato, tato, paladar) conforme as relacionamos com nossas memórias (experiências passadas). Esse atributo de nosso cérebro nos permite organizar e interpretar o meio em que vivemos. Estamos constantemente selecionando, adquirindo, interpretando e organizando as informações. Atualmente esta é a habilidade mais explorada por diversas empresas a fim de influenciar as pessoas em sua opinião, gosto e comportamento a fim de gerar consumo. Enquanto nas artes visuais os artistas nos apontam as muitas formas pelas quais podemos ser facilmente manipulados através de nossas percepções - são eles os especialistas em criar realidades imaginárias – grandes parte das pessoas segue ignorante ou mesmo cética a respeito desse fato. Não por acaso as artes visuais constantemente tornam-se alvo de críticas e boicotes por poderem apontar como ocorrem as manipulações perceptivas visuais que podem ser usadas produzem a fé cega em discursos e objetos de consumo. Os mitos nascem deste construto e são capazes de direcionar muitas pessoas na crença de valores de vida ilusórios. A frequente absorção de material gráfico e visual conduz nossa forma de pensar e nossos julgamentos. Quando estratégica e inteligentemente montada, perspectivas artificiais tornam-se uma verdade tão natural que até assumimos que elas nos pertencem, embora nunca a tenhamos criado em primeiro lugar.


Hugo Münsterberg, psicólogo alemão, apontou em sua teoria da memória, que por não conseguirmos armazenar todos os detalhes de tudo aquilo que nos confrontamos na vida nossa mente arranja uma maneira de preencher as inevitáveis lacunas através de nosso sistema de valores, nossos conhecimentos prévios e expectativas. Facilmente podemos atribuir uma informação, associada a uma emoção ou pensamento nosso, a um evento que não tivemos condições de memorizar. Entendendo como esses e outros mecanismos de memória ocorrem, campanhas publicitárias são feitas de modo a embutir valores nos consumidores de maneira subliminar. (MLODINOW, Leonard. Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas. Zahar, 2012). Outro fenômeno comum de ocorrer é a generalização, quando nosso cérebro reúne um grupo de pessoas ou coisas em uma categoria mais genérica e por vezes preconceituosa, a fim de resumir os dados e ganhar agilidade de comunicação. Embora seja algo prático a se fazer produz uma falsa homogeneização da realidade e a exclusão de características que enriqueceriam a realidade.


Para estudiosos das artes visuais e da psicologia, compreender como construímos a realidade na qual acreditamos é aprender sobre as percepções da mente - um exercício essencial e necessário para saber fazer escolhas na vida. Um laboratório de criação consiste numa constante investigação de nosso olhar sobre a realidade, nossos conceitos e julgamentos. Para desenhar aquilo que vemos a nossa frente aprendemos a gradualmente criar um saudável distanciamento do objeto observado a ponto de sermos capazes de construí-lo, desconstruí-lo e construí-lo novamente. Este é um processo muito benéfico para treinarmos a mente na direção de uma melhor capacidade de discernimento e de fazer escolhas. Podemos dizer que essa atividade nos predispõe a utilizar a técnica de mindfulness (que em Sânscrito traduz-se por atender ou dar foco e ficar ou permanecer) de forma quase que natural. Uma vez que pelo exercício da arte a mente também pode aprender a olhar para si mesma. Nas palavras de Richo:“Mindfulness is watchfulness more tham watching: We look at reality as custodians of its truth. Sister Wendy Beckett says great artists make great paintings because they have learned ´to look without fixed ideas of what is fitting´. This is mindfulness.” (How to be na adult in relationship: the five keys to mindful loving. Boston: Shambala, 2002, p.13)


Estudar arte é aprender a adquirir uma visão mais aprofundada dos fatos incluindo a subjetividade presente no nosso próprio olhar. As artes visuais quando as contemplamos também nos guiam dessa maneira. Dedicar tempo ao estudo e a prática das artes visuais nos permite adquirir ferramentas que fortalecem nossa existência no mundo. Criar arte é desenvolver autoestima e capacidade de autossuperação. Do início ao fim do percurso de criação e observação da arte temos a oportunidade de recriar nossas vidas. É um exercício de persistência e coragem para viver mesmo quando nos deparamos com pesados desafios como a perda de razão para viver. Admitir a arte em nossas vidas é aceitar que somos singulares e que excentricidade pode apenas ser uma palavra criada para explicar a coragem que alguns têm de viver de acordo com seus próprios recursos e conforme pulsa seu coração.


Quando a arte esteve vinculada às religiões e às políticas de governo elas se tornaram propagandas. Conhecer a arte produzida pelos povos de diferentes países acarreta reconhecer a diversidade de perspectivas sob a vida uma sociedade pode carregar. A arte que fruímos e apreciamos no dia a dia, seja ela popular, elitista, pop ou acadêmica, auxiliam na construção de nossas percepções de vida – o que é possível e impossível – desistir da vida ou vislumbrar outras opções. Ainda bem que as artes visuais hoje carregam uma maior liberdade e autonomia, podendo ser praticada por muito mais pessoas. É preciso lembrar que a arte não nos diz como devemos pensar ou agir, ela nos indaga a respeito de nossas percepções; se nossas escolhas conduzem a uma vida mais feliz e saudável. Nem sempre agradáveis ao olhar e até provocadoras, as obras trazem o discurso da experiência individual e coletiva no objeto da obra. Seus didáticos truques técnicos visuais nos permitem reconhecer nossas falsas percepções, exercitando o discernimento e construído um vocabulário visual mais harmônico e em equilíbrio com nossas emoções.

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Fotos das obras Gustavo Rigon©

 

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