Arte: um caminho para a espiritualidade

Atualizado: Mai 16


Muito tempo livre, ócio, tédio. A alma sente sede de vida. Trabalho que é repetitivo e previamente coreografado aos poucos corrói o brilho da alma. Trabalho em excesso também. Então a busca por algo significativo começa. Buscamos essa força de vida nos relacionamentos afetivos, no dinheiro, no status social, naquele prêmio que achamos que merecemos. Cada um destes aos poucos se desfaz e notamos que ainda não encontramos nossa vitalidade. Por onde ela anda, onde vive, por que não a vemos?

Vamos pensar em nossos passatempos (que palavrinha ingrata! Há mais trabalhos-passatempos hoje que qualquer outra atividade), no esporte, na televisão, no cinema, nos jogos eletrônicos. Fazemos essas coisas e parece que nos movemos de alguma forma, houve um movimento para fora da estagnação. Mas falta algo, porque não nos vemos inteiramente ali, e isso aos poucos aumenta nossa angústia. Não há drama, no sentido da arte, nestes programas. A arte do drama não é realizada de forma completa, porque nestas esferas raramente nos confrontamos com nossas sombras, nossos pessoais e profundos desalinhos. Participamos disso numa distância confortável para o caso de não nos sentirmos seguros de seguir adiante. Estamos nos entretendo, distraindo, mas não consumindo arte.

Na arte do drama mesmo o ciclo é sempre completo: nos colocamos na roda dos eventos, presentes com o melhor que temos em nós, e caímos, nos machucamos, dói. Levantamos e olhamos no espelho: lá está ela, completa, vibrando com força, nas lágrimas, nos risos, na contemplação. Olhamos para ela com coragem, certos de estarmos novamente no lugar do qual nunca saímos. Estamos em puro contato com o Eu maior. Estamos em processo de criação. Há uma troca energética nisso, suamos, transpiramos, nossas células sentem tudo. Criar é errar e não desanimar, retomar o fôlego e seguir o que nossa alma diz. Arte é saber conversar com a alma. Aqui está o belo, em sua residência, nesse diálogo com nossa mais antiga amiga que nunca nos abandona. Esta experiência então termina, nosso eu menor retoma as rédeas e partimos, seguimos pela estrada pensando no que aconteceu, refletindo, relembrando, contemplando aquela força que avistamos e que tanto desejávamos que se fizesse presente. Agora que este pedaço de nosso ser se tornou mais visível estamos mais completos.

Este é o processo da arte, esta é a arte do drama, do viver as emoções em sua plenitude para que através delas o inconsciente se torne consciente, fortalecendo nosso amadurecimento e nos conduzindo à realização espiritual. Seja nas mãos de quem cria como no olhar de quem vê e frui a arte. Veja bem: não falo de religião aqui, nem leis, nem dogmas, e sim da essência humana. A estética da arte traz isso, um compromisso filosófico no seu tratamento plástico. E quem muito explica sua arte se distancia da alma, arrisca obscurecer seu brilho, cobri-la com um manto, o que exige novas buscas, novos caminhos de exploração até seu centro. Para quê? Ou a arte nos conduz à alma, ou não é arte, é vício.

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Fotos das obras Gustavo Rigon©

 

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